Existe uma forma de ler a Escritura que a Igreja usa discretamente desde o século IV, e que a maioria dos cristãos de hoje nunca aprendeu. Chama-se lectio divina — latim para "leitura divina" ou "leitura sagrada".
Não é um método de estudo. Não é um truque de produtividade. Está mais próxima da forma como ouviria uma peça de música pela segunda vez — mais devagar, atento ao que vem à superfície — do que da forma como lê uma notícia. Demora cerca de quinze minutos. O texto é normalmente curto. E é uma das poucas práticas espirituais que sobrevive a todas as estações da vida quase sem modificações.
Este é um guia prático para quem nunca a fez.
De onde vem a Lectio Divina
As raízes remontam aos primeiros monges do deserto, no século IV, mas quem deu à prática a sua forma clássica em quatro passos foi um monge cartuxo do século XII chamado Guigo II, num pequeno livro intitulado Scala Claustralium — "A Escada dos Monges". A sua imagem era simples: a oração com a Escritura é uma escada de quatro degraus. Suba um de cada vez e dará por si num lugar a que não poderia ter chegado só pela leitura.
Os quatro degraus, em latim: lectio (leitura), meditatio (meditação), oratio (oração), contemplatio (contemplação).
Apesar dos nomes medievais, a prática em si é pausada, simples e acessível. Uma criança consegue fazê-la. Um teólogo pode passar nela a vida inteira.
O que precisa
- Uma Bíblia (qualquer tradução)
- Uma passagem curta — normalmente quatro a oito versículos
- Doze a vinte minutos
- Um lugar tranquilo, ou suficientemente tranquilo
- Uma caneta, opcional
É esta a lista completa. Não é precisa nenhuma aplicação, nenhum comentário, nenhuma vela. Pode acrescentá-los, se quiser.
Como escolher uma passagem
Escolha algo curto. Um salmo. Uma passagem do Evangelho das leituras da missa do dia. Uma passagem que lhe tem andado na cabeça. Algumas tradições seguem o Lecionário diário; outras percorrem lentamente um único livro. A escolha importa menos do que o abrandar.
Se não tiver uma passagem em mente, o versículo diário do Haven renova-se todas as manhãs com uma passagem curta da Escritura, escolhida para o tempo litúrgico. É, na prática, um ponto de partida para a lectio entregue em mão enquanto o café passa.
Os quatro passos
1. Lectio — Leitura
Leia a passagem em voz alta, lentamente. Depois leia-a uma segunda vez, lentamente. Repare se alguma palavra ou expressão o prende discretamente — uma palavra que parece iluminar-se quando a diz. Não analise ainda. Limite-se a ler, duas ou três vezes.
Isto não é estudo. Não está a perguntar o que diz aqui o grego? Está a perguntar o que me está este texto a dizer, agora mesmo, nesta sala?
2. Meditatio — Meditação
Fique com a palavra ou expressão que o prendeu. Revolva-a devagar. Leia a passagem mais uma vez, com essa palavra em mente. Deixe-a circular pela sala.
O que é que ela desperta? Uma memória, uma preocupação, uma esperança, uma gratidão, um desconforto? Não afaste nada disso. A meditatio não é concentração — é deixar o texto e a sua vida estarem na mesma sala durante alguns minutos e reparar no que dizem um ao outro.
3. Oratio — Oração
Agora responda. Com a sua própria voz, fale com Deus sobre o que a passagem despertou. Em voz alta, em pensamento, por escrito — como lhe for mais natural. Seja concreto. Se a palavra que o prendeu foi paz, peça a paz pelo nome, no lugar concreto em que ela lhe falta. Se a palavra foi medo, diga do que tem medo.
Este é o degrau em que a prática se torna oração no sentido corrente — falar com Deus. Os passos anteriores prepararam-no para isso.
4. Contemplatio — Contemplação
Pare de falar. Fique em silêncio com Deus. Não tente receber nada. Não tente sentir nada. Descanse simplesmente aí, na presença do Senhor que lhe falou através da passagem.
Este é o degrau que a maioria das pessoas de hoje salta, e é o que faz o trabalho lento e profundo. Na maior parte das vezes, parecerá que nada acontece. Não faz mal. A semente não negoceia com a terra; limita-se a ficar nela.
Fique dois a cinco minutos. Termine com uma oração breve (o Pai Nosso, uma pequena ação de graças) e o sinal da cruz.
Um exemplo concreto
Tome o Salmo 46, 10 — "Parai e reconhecei que Eu sou Deus."
- Lectio. Lê em voz alta duas vezes. A palavra parai prende-o.
- Meditatio. Fica com a palavra parai. Repara em quanto do seu dia não tem paragem nenhuma. Sente o contraste nos ombros. Lê o versículo outra vez, com essa palavra na mão.
- Oratio. Diz: Senhor, há semanas que não paro. Não sei pousar o telemóvel ao fim do dia. Ajudai-me a sentar-me convosco um minuto esta noite sem lhe pegar.
- Contemplatio. Para de falar. Fica sentado três minutos no silêncio. Não tenta extrair nada. O versículo descansa consigo.
Foi uma sessão de lectio divina. Quinze minutos. Repetível para o resto da vida.
Erros comuns de principiante
Tratá-la como estudo. A lectio não é exegese. Há lugar para o estudo sério da Bíblia, mas não é aqui. Faça-o com um comentário, noutra hora.
Escolher uma passagem demasiado longa. Oito versículos chegam bem. Vinte são demasiados. Mais vale ler uma passagem curta quatro vezes do que uma passagem longa uma vez.
Saltar o silêncio. A contemplatio parece improdutiva porque, por definição, é. A questão não é produzir nada. Fique sentado na mesma.
Exigir uma luz de cada vez. Algumas sessões parecem ricas. A maioria parece banal. Nalgumas parece que nada aconteceu. Tudo isto é normal. A lectio é uma prática, não uma máquina de venda automática.
Desistir ao fim de três dias. Como toda a prática de oração, a lectio torna-se mais silenciosa, e não mais sonora, nas primeiras semanas. A profundidade chega por volta da quarta semana, quando deixa de tentar fazê-la funcionar.
Quando e onde
A maioria das pessoas faz a lectio divina de manhã, antes de o dia se encher de ruído, sentada numa cadeira específica, com a mesma Bíblia. A repetição do lugar ajuda o corpo a serenar depressa.
Também funciona:
- Antes de deitar (o dia encontra o seu centro)
- Na pausa do almoço, numa sala sossegada
- No comboio, a caminho do trabalho, se conseguir ler num ecrã sem se distrair
- Durante a Adoração do Santíssimo Sacramento, onde quase reza sozinha
Onde a Lectio se situa na vida católica
A lectio divina não é uma prática exclusivamente católica — é partilhada com os ortodoxos, os anglicanos e muitas tradições protestantes — mas está especialmente enraizada na paisagem espiritual monástica e católica. Se quiser ver onde ela se situa ao lado da Missa, do rosário, da Liturgia das Horas e do resto da oração católica, o guia do ano litúrgico católico coloca-a dentro da estrutura maior.
Se quiser começar com versículos já escolhidos para si, o versículo diário do Haven foi criado para isso — uma passagem curta da Escritura, renovada todas as manhãs, com a medida exata do tipo de leitura lenta que a lectio pede. E se uma determinada época da sua vida interior pender para a preocupação ou o cansaço, as coleções de versículos bíblicos para a ansiedade e de versículos bíblicos de esperança dão-lhe um poço fundo de textos curtos para levar à lectio nas próximas semanas.
Uma palavra final
A lectio divina sobreviveu mil e seiscentos anos por uma razão simples: cumpre o que a própria Escritura promete. Não lhe dá informação nova. Dá-lhe, lentamente, um eu diferente.
Escolha uma passagem curta amanhã de manhã. Leia-a duas vezes. Fique com a palavra que o prender. Fale com Deus sobre ela. Fique em silêncio. Depois vá.
É esta toda a prática. O resto são só anos a fazê-la.